Raízes da Seleção: O funk, a ilha e o futebol de Lucas Paquetá

Raízes da Seleção: O funk, a ilha e o futebol de Lucas Paquetá

Criado na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, meia volta ao Brasil para disputar sua primeira competição oficial pela Seleção

Série especial conta história dos jogadores da Seleção Brasileira

Créditos: Lucas Figueiredo/CBF

Momentos antes de entrar em campo contra o Panamá, Lucas Paquetá fechou os olhos. Estava prestes a vestir, pela primeira vez, a camisa 10 da Seleção Brasileira. Apenas 32 minutos depois, foi às redes. Emocionado, comemorou agradecendo aos céus e… rabiscou. Como se fizesse do Estádio do Dragão um grande baile funk, repetiu alguns de seus passinhos preferidos. Foi então que todos os presentes tiveram certeza: estava ali um representante legítimo do futebol brasileiro.

Paquetá carrega a ginga do jogo bonito. Desde pequeno, reveza passos de dança e dribles de corpo. É um tipo de elo entre dois pilares fundamentais da cultura brasileira. E não é só na hora de comemorar que ele dança. O meia guarda alguns de seus movimentos preferidos para a partida. Quebra a cintura e dá um toque de calcanhar. Passa o pé por cima da bola, vai para um lado, para o outro e avança. Sem saber se tem de tomar a bola ou seguir os passos do bailarino, o adversário entra no ritmo. E fica para trás.

– Eu sempre gostei muito de dançar, e o funk te dá um som mais acelerado. Desde os 9 anos eu já escutava. Aos 12 eu fiz aquele funk do Flamengo. Sempre gostei de ouvir um som e o funk foi o meu preferido. Mesmo que o tempo tenha passado e eu tenha amadurecido, não deixo de ouvir. Até mesmo antes dos jogos, é uma forma de eu entrar mais alegre e com mais energia – explicou

Lucas Paquetá - Brasil x Panamá Dançando, Paquetá comemorou seu primeiro gol pela Seleção
Créditos: Lucas Figueiredo/CBF
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A bola e o funk acompanham o meia da Seleção desde que ele ainda era um menino na ilha de Paquetá. O bairro, que serve como um refúgio para muitos cariocas, foi um bom lar para a infância dele. Foi lá que, enquanto brincava de pião, pique-lateiro e soltava pipa, Lucas viu florescer o sonho de ser jogador. E encarou uma rotina desgastante para realizá-lo.

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Ao lado de seu avô e seu irmão, Matheus, fazia diariamente a travessia da Baía de Guanabara para chegar ao centro do Rio. Começou a jogar futebol de salão no Flamengo, ao mesmo tempo em que o irmão se aventurava nos gramados. O trajeto era extremamente cansativo. Entre Paquetá, Gávea e o Ninho do Urubu, os dois passavam praticamente o dia inteiro fora de casa. Saíam às 9h e chegavam depois de meia noite.

– Eu treinava 19h, mas eu saia de manhã por causa do meu irmão. Ele treinava no campo do Flamengo e só meu avô que conseguia levar a gente. Então eu tinha que ir junto, via meu irmão treinar e eu esperava. Era 1h30 de barca, 2h até a Gávea, da Gávea a gente ia para o CT. Esperava meu irmão treinar, voltava para a Gávea, treinava no salão e só depois ia para casa - lembrou.

Foi justamente por morar tão longe que o Lucas Tolentino se transformou em Lucas Paquetá. O tempo passou e ele se mudou para Curicica, bem mais próximo ao CT do Flamengo. Mas nem por isso as dificuldades deixaram de acompanhá-lo.

– A gente não tinha muito dinheiro para voltar. Quando meu irmão tinha fome, voltávamos a pé para poder comer. E quando eu estava muito cansado, ele ficava com fome para voltarmos de van. Isso me marcou muito – recordou.

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Hoje na Seleção Brasileira, Paquetá se lembra com carinho dos tempos de Flamengo. O Ninho do Urubu, que foi sua casa por tanto tempo, cativou um lugar especial em seu coração, que sofreu muito no início deste ano. Em fevereiro, um incêndio interrompeu precocemente a vida de dez jovens das categorias de base do Fla, que cultivavam os mesmos sonhos que ele já teve um dia.

De volta ao Rio, Paquetá agora sonha com a final no Maracanã. Porque, sim, seria especial ganhar um título na cidade e no estádio em que cresceu. Mas poder dedicar uma conquista a esses garotos, que nem tiveram a chance de realizar os próprios sonhos, é o que mais mexe com ele.

– Eu estive no Ninho. Olhei pra onde tinha os alojamentos e dá uma dor no coração, porque você viveu aquilo, sabe o quanto eles queriam chegar aqui… E vimos isso ser interrompido por uma tragédia. Os que ficaram olham para mim como um exemplo, então quero ser essa referência. Quero esse título para dedicar a todos eles, que tanto se esforçaram e não puderam realizar este sonho – concluiu.

Retrato Lucas Paquetá Lucas Paquetá volta ao Rio de Janeiro para sua primeira competição com o Brasil
Créditos: Lucas Figueiredo/CBF

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