50 anos do Tri: Vida de bola

50 anos do Tri: Vida de bola

Assista ao vídeo especial para comemorar os 50 anos da conquista da Copa do Mundo de 1970, no México


Vídeo baseado na crônica "Vida de bola", de Matheus Meyohas

Vida de bola não é fácil. Tem muita gente que te maltrata, que não tem intimidade nenhuma, sabe? Fica aquela coisa desconfortável, torço pro juiz apitar e acabar o sofrimento. Mas também tem muita gente que te dá todo o carinho. Aí, quero que o jogo não termine nunca. Não existe nada como cair no pé de um craque. É um sonho.

O que vou dizer aqui pode soar saudosista. Até é. Mas não me vejam como aquela velha rabugenta, não é isso. O que não falta é craque para cuidar de mim hoje em dia. Mas poxa vida, que saudade que eu sinto da Copa de 70.

Como era bom acordar, olhar a tabela e ver que tinha jogo do Brasil. Que bom era estar entre os pés dessa gente. Ir aos céus e saber que, quando caísse, encontraria Gérson, Tostão, Rivellino, Paulo César Caju. Uma constelação comandada com maestria pelo brilhante Zagallo.

Era tão especial que eu fui me apegando a eles. Não queria que a Copa acabasse nunca. Cada um do seu jeito, todos me amaram intensamente. O Félix tinha a mania de me segurar com firmeza, mas me mandava embora nos tiros de meta. Gérson também me lançava a grandes distâncias, mas com um toque diferente. A Canhota de Ouro tirava o peso de mim. Nas nuvens, viajava antes de reencontrar outro craque da Seleção. E Clodoaldo? Esse me mantinha pertinho, com pé colado, drible curto. A gente chegou a se desentender contra a Itália, mas são coisas que acontecem.

A dupla de zaga me deixou de queixo caído. Brito e Piazza. Estava acostumada a ser tratada com pouca educação pelos beques mundo afora. Chutão, bico. Esses, não. Me colocavam no chão. Às vezes eu tinha até que olhar para cima, para me certificar se eram mesmo zagueiros.

Na esquerda, Everaldo era quase um terceiro zagueiro, mas gostava de me acertar na veia. Não com a frequência do Riva, outro cracaço do meio-campo, a Patada Atômica. Na direita, o Capita. Esse era diferente, dava pra notar. O cara mal olhava para mim. Pdiam achar que ele era esnobe, mas era só classe mesmo. E as arrancadas? Nem sei quantas vezes perdi o fôlego tentando acompanhar suas pernas. Ah, que saudade do Capitão…

Os caras da frente não dormiam em serviço. Tostão, com um jeito mineiro de amar, me conquistou pela simplicidade, a maneira como exibia sua técnica em campo. Jairzinho se entendeu muito fácil comigo. Química instantânea. Só ele conseguiu marcar em todos os jogos, veja só! Fui, jogo a jogo, conhecendo goleiros de diferentes países do mundo. Tchecos, ingleses, romenos, peruanos, uruguaios, italianos… Todos com o mesmo olhar cabisbaixo, me buscando dentro da rede enquanto o Furacão comemorava mais um gol.

Tudo isso ficava ainda mais fácil no Jalisco. Nada contra os outros estádios, mas aquele gramado parecia um campo de golfe, eu rolava fácil para um lado, pro outro, deslizando como queria. Lá, participei de lances antológicos. Nem todos terminaram em gol, é verdade. Mas eu bem que tentei.

Ou vocês acham que eu não me esforcei para cair nas redes quando Pelé me chutou do círculo central? Que não tentei uma última curvinha para dentro do gol depois que ele driblou o goleiro do Uruguai? Quando eu e ele nos acertamos, na cabeçada fulminante contra a Inglaterra, apareceu Gordon Banks, outro saudoso amigo. Faz parte.

Eu e Pelé sempre fomos almas gêmeas. Uma combinação tão perfeita que até nossos erros eram lindos. Foi em 70 que o vi se despedir dos Mundiais. Tão jovem, aos 29 anos. Os outros craques terão de me perdoar, mas com ele era diferente. Um toque majestoso, de gênio. De Rei. E, cá entre nós, o que não faltou foi chance de celebrar essa união.

Minha relação com aquela Seleção foi mesmo especial. Era como se o Brasil inteiro estivesse jogando comigo e, dentro de campo, eu pudesse sentir tudo que o povo brasileiro tem de melhor. Estar em um jogo da Seleção era como ser celebrada em um domingo de Carnaval, ser a canção principal de uma roda de samba, um rio passando em minha vida. Aquele time é capoeira, é boi bumbá, é a força do povo e sua alegria para celebrar a vida. É a bossa nova, o sertanejo, o forró, o pagode. É o que o Brasil tem de melhor, em sua beleza e pluralidade. Com ela, eu me sentia brasileira também.

Mas quem disse que não sou? O futebol pode não ter sido inventado por essa gente, mas não importa: os brasileiros e as brasileiras jogam bola de um jeito diferente, com paixão, com amor. Como não achar esse jogo bonito? Aquele time era o maior exemplo disso. Nossa sincronia foi tão grande que só poderia terminar com um gol de placa. Foi há 50 anos, mas me lembro como se fosse hoje. De pé em pé, teve de tudo. Drible, passe, ultrapassagem, improviso… e uma ajudinha minha, é claro.

Quando Pelé me dominou na entrada da área, eu sabia que vinha coisa boa. Ele me rolou para a direita, mas já não estávamos no Jalisco. O gramado do Azteca, meio irregular, poderia prejudicar o chute do Carlos Alberto. Foi então que entrei em ação. Procurei o primeiro morrinho artilheiro e o usei como trampolim. Uma quicadinha e foi só esperar o Capita fazer o resto. Nunca me senti tão bem.

Ali, poderia ter acabado o jogo, a Copa, o mundo. O futebol estava representado em sua maior obra. Nunca haverá um gol como o de Carlos Alberto. E como foi bom ver, do centro do gramado, já sozinha, o Capita erguer a Jules Rimet. O tempo passou, mas nos meus sonhos, eu sempre reencontro a Seleção Brasileira de 1970. E tudo bem. Muitas vezes, não há sentimento mais bonito do que uma saudade.

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