
Julia Pereira está na primeira Copa do Mundo da carreira
Fabio Souza/CBFFoi em Almenara, pequena cidade no interior de Minas Gerais às margens do Rio Jequintinhonha, que Júlia Pereira nasceu e aproveitou muito sua infância . “Eu dizia pra minha mãe ‘vou brincar’ e só voltava às dez da noite. Não tinha perigo, todo mundo se conhecia. Era interior, uma cidade gostosa, tranquila, onde todo mundo sabia quem eu era a neta de Dajuda”. A brincadeira preferida de Júlia era com os meninos numa quadra da cidade que virou sinônimo de liberdade. “Lá, a gente jogava valendo refrigerante. Cada um levava um real e passava o dia inteiro no jogo. Voltava toda suja de barro. Minha mãe brigava, ficava brava, mas no fim ela mesma lavava a roupa”, ri, lembrando.
O futebol é herança de família. “Meu pai jogava, minha mãe jogava, minha tia joga até hoje. Meus primos, meus irmãos… todo mundo. Lá, o povo conhece a gente por causa do futebol." Aos 12 anos, a menina do interior que jogava no "terrão" recebeu um convite inesperado. Um olheiro, que trabalhava com equipes de Governador Valadares, pediu que ela fizesse um teste em Caratinga. “Minha tia me acompanhou. Foi um sufoco pra conseguir a passagem, mas eu fui. Fiz o teste no futsal de Valadares e passei. Só que eu era muito nova, então precisei esperar completar 13 anos pra poder me mudar.” A mudança foi um choque. “Eu saí de um interior pequenininho e fui pra uma cidade grande. Era escola de manhã e treino à tarde. A rotina era puxada. Sei que perdi um pouco da minha infância. O futebol me deu muitas responsabilidades muito nova. Um dia liguei pra minha mãe chorando dizendo que queria ir embora. Mas ela me disse: ‘Aguenta, filha. Logo as coisas vão melhorar’. E eu fiquei.”
O talento de Júlia começou a chamar atenção. No futsal, ela se destacou e ajudou a equipe a conquistar o título dos Jogos Escolares de Minas Gerais, JEMG, classificatório para competições nacionais. Foi na fase nacional que que tudo mudou. “Tinha um olheiro do São Paulo, o Renato. Ele me chamou e disse: ‘Quero te levar pra fazer um teste no campo’. Eu nem acreditei. Era meu sonho desde pequena.”
Julia Pereira em jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo sub-17 no MarrocosCréditos: Fabio Souza/CBF
Julia conta que sem saber nada de futebol de campo, ela chegou ao CT do São Paulo nervosa e desacreditada. “Fiz uma semana de teste e, no final, o treinador chamou minha mãe. Quando ele disse que eu tinha passado, ela ajoelhou e começou a agradecer. Minha família soltou fogos lá em Salto da Divisa.”
A vida em São Paulo não foi fácil. A rotina começava às quatro da manhã, com ônibus, metrô e mais ônibus até o centro de treinamento. “Tinha dia que eu pensava em desistir. Eu e minha mãe não tínhamos nem o dinheiro certo da passagem. Teve uma vez que faltou cinco centavos e a gente sem saber o que fazer. Ela achou na bolsa e rimos pra não chorar. Meus pais viviam debatendo que o dinheiro tava 'curto' e sempre davam um jeito pra ter dinheiro da passagem", relembra emocionada.
As dificuldades levaram Julia ao limite, exaustão mental. “Teve um dia que eu voltei de um jogo calada, chorando. Falei pra minha mãe que queria desistir. Ela me olhou e disse: ‘Você quer mesmo desistir agora, depois de tudo que a gente lutou?’ Foi então que decidi continuar.” A decisão valeu. desse dia em diante, Julia evoluiu, virou titular e capitã do Sub-15, depois subiu pro Sub-17 e, mais tarde, ao Sub-20 do São Paulo. “Eu comecei a assistir jogos, estudar. Fui pegando o jeito. Aí o futebol de campo começou a fluir.”
Mesmo com a mudança para São Paulo e a trajetória no futebol em ascensão, Júlia segue conectada à origem. Sempre que tem algum tempo entre competições e férias, ela volta para casa. Ela também desenvolveu um lado empreendedor. Parte do dinheiro que ganha ela sempre investe em gado com os pais. “Minha mãe fala que é nosso futuro. Sou do interior, né?! Tem essa cultura. Mas o que importa mesmo é saber que o que eu tô conquistando tá ajudando minha família.”
Julia Pereira durante preparação na Copa do Mundo no MarrocosCréditos: Fabio Souza/CBF
Sonho realizado: Seleção Brasileira
Fim de 2023. Júlia estava em casa, em Almenara, reclamando do celular quebrado quando recebeu uma mensagem: “Parabéns!”. “Eu achei que era engano. Nem era meu aniversário (risos). Aí minha amiga falou: ‘Você foi convocada pra Seleção Brasileira’. Eu não acreditei. Minha mãe começou a chorar, minha família inteira pulando. Foi a maior festa da cidade.”
A outra grande surpresa de Julia foi quando descobriu que estava convocada para a Copa do Mundo Sub-17 no Marrocos. Antes da convocação, Júlia enfrentou uma lesão no tornozelo. “Achei que não ia pra Copa, mas fui chamada. Quando vi meu nome na lista, pulei da cama gritando. Eu sabia que tudo tinha valido a pena.” Julia relembra emocionada o orgulho de entrar no estádio para representar o Brasil no mundial. “Quando entrei no estádio e vi aquela multidão, pensei: ‘Uma menina do terrão tá numa Copa do Mundo’. Comecei a chorar. Lembrei da minha mãe, do meu pai, de tudo que a gente passou. Agradeci a Deus por não ter deixado eu desistir.”
Agora, concentrada para o mata-mata, Julia fala sobre o duelo decisivo nesta terça-feira (28), contra China pelas oitavas-de-final, com a alegria e serenidade de quem aprendeu na marra a persistir: “O brasileiro é assim: luta até o fim. A gente pode cair, mas levanta. Eu nasci lutando e não vou parar agora.”
