Allyne em treino da Seleção no Marrocos
Fabio Souza/CBFAllyne, conta um pouco da sua infância em Cuiabá, onde foi o início de tudo para o que você vive hoje no futebol.
Bom, eu vim de um bairro chamado Liberdade, ele é em Cuiabá, em Mato Grosso, ele é bem afastado, assim, do centro, então é meio que interior. Eu cresci morando com quatro irmãos e minha avó Dalvina e meu tio, mas meu tio faleceu. na verdade, ao todo, nós somos nove, tá indo pra dez, mas eu sou a mais velha, mas eu só convivi com sete, porque dois nasceram enquanto eu já tava fora de casa. Quer dizer, um nasceu e o outro já tá vindo comigo, mas eu ainda tô fora de casa, eu nasci agorinha, tá previsto pra eu nascer mês que vem, eu acho. Mas eu conheci sete, mas eu cuidei só de três, que foram os que moravam comigo, que é o Sidney, a Elisa e a Maria. E uma curiosidade é que os quatro primeiros são de dois em dois anos, eu tenho 17, a minha outra irmã tem 15, o outro tem 13 e o outro tem 11.
Como foi cuidar dos seus irmãos e ser quase uma “mãe” para eles?
Eu falo cuidar porque eu nunca morei com os meus pais, porque meus pais são dependentes químicos. Sempre fiquei com a minha avó, eu fui morar com a minha avó, porque uma vez o meu pai e minha mãe, eles fugiram, sumiram do nada e aí deixou a gente em casa sozinha. E aí por uma denúncia do conselho do telhado, eles foram buscar a gente e a minha avó ficou sabendo e foi buscar a gente lá. Minha avó é muito idosa, ela é diabética, ela tem hipertensão, ela tinha muita coisa. E como eu era mais velha, então eu tinha que cuidar dos meus irmãos.
Allyne durante preparação da Seleção Brasileira para Copa do Mundo Sub-17 no MarrocosCréditos: Fábio Souza/CBF
Então você aprendeu a fazer tudo em casa muito nova...
Sim, eu fui a primeira que minha avó ensinou a fazer tudo, sabe?! Minha avó é "maluca" por café, a primeira coisa que ela me ensinou a preparar foi café. E de um jeito muito específico dela. Tipo, tem a panela específica, tem o coador específico, tinha uns cinco quando eu morava lá. Mas se fosse pra ela, tinha que ser aquele coador e ela queria a água esquentada numa frigideira. Tinha que colocar exatamente duas colheres e meia de pó, depois tinha que coar direto na garrafa e aí fechava a garrafa e não podia mexer por um tempo pra poder servir. Na cabeça dela era um ritual fazer o café daquele jeito.
Com tantas responsabilidades como foi sair de casa para jogar futebol?
Eu nunca pensei em sair de casa de casa mas aconteceu. Eu tinha uma melhor amiga e ela tinha vontade de jogar bola. O pai dela apoiava. Um dia ele me viu brincando com ela e perguntou se eu queria ir na escolinha que a Giovana jogava. Ele levava a gente a noite pra treinar num bairro do lado do meu. Fiquei naquela escolinha por uns dois anos. Fiquei até os treze. O professor Marcos, que era conhecido como Maduro, me considerava como filha, eu considerava ele como pai, por não ter uma figura paterna em casa. Até que um dia o professor me pediu para jogar um jogo contra um time feminino de Cuiabá, que se chamava Ação. Minha avó não queria me deixar ir porque eu teria que ir num projeto social que nós participávamos. Mas ele Insistiu muito e minha avó deixou ir. Joguei o amistoso contra esse time, e o treinador do time me convidou para treinar com o time. Eu ia de ônibus treinar a noite. Uma semana depois ele pediu para preencher uns documentos para peneira no Grêmio. Tive que convencer meus tios a pagar tudo, porque era tudo por nossa conta. Pousada e tudo mais. Precisei criar coragem para sair de casa porque queria cuidar de todos. Demorou para eu conseguir convencer a minha avó para deixar eu ir. Tive também que convencer os meus tios. Por isso levou tempo para poder assinar tudo. Fui fazer o teste dia 8 de agosto de 2022 e passei. Minha mudança para Porto Alegre para morar foi no dia 5 de setembro de 2022.
Allyne durante execução do hino nacional no jogo contra Costa Rica no mundial Sub-17 no MarrocosCréditos: Fabio Souza/CBF
E qual foi seu diferencial que você acredita ter chamado atenção para estar aqui na Seleção Brasileira?
Na verdade eu não sei direito, mas eu acho que é porque desde sempre eu fui muito forte, porque eu sempre joguei no meio de meninos. Eu acho que isso que me diferenciou quando eu joguei contra homens e mulheres adultas. Por mais que eu era nova, eu acho que eu sempre fui muito forte, então eu sabia duelar essas coisas. Eu acho que foi isso.
Você lembra a primeira vez que você vestiu a camisa da Seleção?
A primeira vez que eu vesti a camisa da seleção, não foi em um jogo, fui na convocação em Sorocaba, em maio de 2024. Eu lembro que, tipo, eu estava muito nervosa porque era um sonho. Assim que a gente recebeu o uniforme de treino, eu passei o tempo inteiro com ele. Eu não queria tirar. E eu ficava o tempo todo me olhando no espelho sem acreditar que estava usando essa camisa. Já a minha primeira competição foi o Sul-Americano desse ano. No meu primeiro jogo, eu chorei tanto de tanta alegria porque eu pensei 'Aline, você saiu da Liberdade, no interior do Cuiabá, no meio do Mato Grosso, e tá parando na Colômbia pra jogar um Sul-Americano com a camisa da Seleção. E agora eu tô no Marrocos pra jogar uma Copa do Mundo. Pra mim foi surreal e ainda continua sendo surreal. Ainda continuo não acreditando de fato que eu tô aqui e que eu mereço estar aqui.
Allyne durante a partida contra Peru na Sul-Americana em março deste anoCréditos: Nelson Terme/CBF
Pra você, estar no Mundial tem qual significado?
Pra mim estar no Mundial para mim significa muita coisa porque a Allyne de três anos atrás nunca ia imaginar que eu iria estar aqui. Porque na realidade que eu vim, o destino era duas coisas. Ou eu tinha que sair de lá, o que aconteceu, ou ia acabar me envolvendo em coisa errada. Um caminho errado. Eu falo muito que o futebol salvou a minha vida porque como minha infância não das melhores, sendo a mais velha de três irmãos, morando numa casa não muito confortável, além de ter tido depressão. Então eu acho que o futebol salvou a minha vida. Se eu não tivesse insistido no futebol, eu acho que eu não estaria aqui, porque o futebol é o que me trazia alegria. Então pra mim o significado de estar aqui no Mundial é saber que eu não desisti da minha vida.
Quem escuta sua história vê que sair de casa foi um ato de coragem. Essa coragem é uma característica forte sua que você leva para o campo?
Eu me vejo como uma menina corajosa. Eu não tenho medo de tentar as coisas. Sempre tem um risco, como a nossa treinadora fala. Dentro de campo eu também sou corajosa porque se eu vejo um passe arriscado ou longo, eu tento. Não deu certo, troca a chave. Mas eu sempre tento de primeiro. Tento sempre arriscar.
Allyne comemora terceiro gol marcado na vitória por 3 a 0 na estreia do Brasil contra Marrocos no mundial Sub-17Créditos: Fabio Souza/CBF
Como tem sido trabalhar com esse grupo de atletas e a comissão técnica?
É o melhor grupo de atletas e comissão que eu já fiz parte. Tanto pela parte da comissão em relação aos esforços que eles fazem pra nos dar a melhor estrutura e tanto das atletas em relação para cuidar do ambiente. Porque não adianta muito ter várias peças com qualidade se a energia e o ambiente é lá embaixo, sabe? Então eu acho que esse é um grupo bom porque além de ter muita qualidade, ainda tem muita união.
Allyne, obrigada por compartilhar sua vivencias com a CBF Tv. Deixa uma mensagem para o torcedor brasileiro sobre esse mundial.
A gente tá trabalhando...duro, porque a gente quer conquistar esse título inédito para o Brasil. A gente está com muito sangue no olho pra ganhar esse mundial. Estamos com muita vontade. O nosso combustível tem sido é acharem que só vamos fazer uma boa campanha. Não! O nosso objetivo é realmente trazer a primeira estrela.
