Baú da Seleção: Júnior Negão relembra conquista do Mundial de 95 com Zico, Júnior e companhia

Baú da Seleção: Júnior Negão relembra conquista do Mundial de 95 com Zico, Júnior e companhia

Há 25 anos o Brasil conquistava seu primeiro Mundial de Beach Soccer. Multicampeão, Júnior Negão compartilhou lembranças da Seleção que até hoje é apontada como a melhor da história do esporte

Liderados por Zico e Júnior, a Seleção de Beach Soccer do Brasil fez história em 95 ao conquistar o primeiro Mundial da categoria. Liderados por Zico e Júnior, a Seleção de Beach Soccer do Brasil fez história em 95 ao conquistar o primeiro Mundial da categoria.
Créditos: CBSB

Zico, Júnior, Edinho e Cláudio Adão. Um baita time de futebol, certo? Esses craques desfilaram seu talento junto nos gramados. Mas é de outra modalidade que o Baú da Seleção vai falar nesta terça-feira. Afinal, o entrevistado de hoje é Júnior 'Negão', que jogou ao lado de todos esses craques na areia. Para o site da CBF, o ídolo da Seleção Brasileira de Beach Soccer relembrou o Mundial de 1995, uma conquista tão simbólica quanto pioneira.

Em 2020, completaram-se 25 anos que o Brasil conquistou o mundo pela primeira vez. Júnior Negão foi um dos jogadores de areia "de ofício" naquele torneio. A edição de 95 também marcou a estreia do torneio conhecido como Mundial, que tinha chancela da ‘Beach Soccer Worldwide’ – até passar a ser organizado pela FIFA, em 2005, e virar a Copa do Mundo de Beach Soccer. Desta forma, aquele grupo campeão em meados da década de 90 abriu as portas para uma hegemonia brasileira que perdura até hoje no futebol de praia.

“Foi um time espetacular que eu tive a sorte de entrar. Quando a gente jogava, no outro dia a gente era sempre capa do O Globo. A gente foi campeão do mundo. Eu ganhei nove Mundiais e 3 Copas do Mundo FIFA. E sempre perguntam e eu digo que o primeiro, em 95, para mim foi o mais importante. Porque eu joguei junto com os caras, né? (risos). Vi o Zico, Adão, Edinho, vi esses caras jogarem minha vida toda. Era garoto e os via jogando pela Seleção em Copa do Mundo: 78, 82.... Então (jogar com eles) era a maior alegria”, relembrou,

Em um time tão acima da média tecnicamente e repleto de veteranos, é até compreensível que a carga de treinos fosse mais branda. Mas não foi nada disso que aconteceu. Negão garante que a principal característica daquela equipe era a seriedade e o comprometimento – cobrado justamente pelos mais experientes da Seleção.

Seleção de 95 saudando os fãs após uma sessão de treinos. Seleção de 95 saudando os fãs após uma sessão de treinos.
Créditos: Acervo Pessoal

“A gente não tem como deixar de ressaltar a importância deles, com a seriedade e a disciplina. Iam treinar com a maior seriedade do mundo. Chegavam na hora. Com aquele time, com Zico, Júnior, Adão, sempre tinha uma mídia grande. E aquele time jogava com muita seriedade, treinava sério. Não levavam na brincadeira”, destacou o jogador, antes de citar suas referências dentro do elenco.

“Foi o Edinho que me botou para treinar. Ele que me fez perceber a força que eu tinha. Ele sempre insistia: ‘Temos que ganhar, não podemos perder’. O Júnior também ressaltou ainda mais essa máxima. E quando veio o pessoal da praia, foi aí que (engrenou). Estou falando também do Júnior, porque o Edinho jogou com a gente uns dois anos, mas o Júnior não, Júnior jogou até 2002, por aí. O nosso segredo é que a gente treinava o ano todo, toda semana. Os treinos eram segunda, quarta e sexta. E em época de competição, tinha treino a semana toda. E o Júnior que comandava, ele que dava os treinos. O mais importante era o exemplo que o Júnior dava. Se tivesse que dar 50 piques, ele dava. Se tivesse que correr até o posto 6, ele corria. E ainda ia na frente. Então não tinha como ninguém olhar aquilo e querer dar migué”, completou Negão.

Campanha de 95


O time de 95 jogava por música, com um estilo ultra ofensivo. E a campanha da equipe naquele Mundial refletiu isso. Foram cinco jogos e cinco vitórias elásticas: 16 a 2 contra a Holanda; 7 a 4 sobre o Uruguai; 8 a 2 em cima da Itália; 13 a 2 diante da Inglaterra (semifinal) e 8 a 1 para cima dos EUA (final). O Brasil teve o melhor ataque da competição, com 52 gols, e a segunda defesa menos vazada, com apenas 11 gols sofridos.

“Eles (Zico, Júnior e cia) jogavam muito, era como os Harlem Globetrotters. Se você olhar o basquete americano, eles têm o estilo de jogo deles, atacam para caramba. E a gente também fazia isso, é isso que o público quer. Nosso time lembrava muito o Flamengo de hoje, é até triste falar isso porque sou vascaíno (risos). Mas o Flamengo de hoje joga para frente, joga para atacar, ganhar. Pode estar ganhando de goleada, vai buscar o oitavo gol. Com a gente era assim, as vezes estava 13 a 1, faltando 30 segundos. E a gente buscava o 14º. O público quer ver espetáculo, e isso, lá no início, a gente deu muito. Muitos gols e jogadas bonitas, e com certeza isso marcou. Esses caras foram os embaixadores do esporte, não tem o que falar”, analisou o multicampeão de beach soccer.

Os jovens Neném e Júnior Negão (ao fundo) celebrando um gol com o Maestro Júnior. Os jovens Neném e Júnior Negão (ao fundo) celebrando um gol com o Maestro Júnior.
Créditos: Acervo Pessoal

Havia também o outro lado da moeda. De acordo com Júnior Negão, por conta do extremo sucesso do time na época, a pressão de vencer e manter a invencibilidade aumentava a cada jogo. O ex-jogador relembrou os méritos do Brasil em superar as adversidades, mas também destacou a qualidade dos adversários durante a campanha – em específico a Itália e o Uruguai.

O ‘trunfo’ da Canarinho estava na disputa do 3º tempo. Na parte final das partidas, a Seleção destoava fisicamente dos demais rivais e conseguia sacramentar de vez as vitórias. E para isso, a mescla entre os veteranos ex-jogadores do campo e a ‘molecada’ da praia foi fundamental.

“O jogo contra a Itália foi duro. Eles tinham o Gentile, que marcou o Zico em 82. Esses caras (que jogaram Copa), onde você colocar, eles vão jogar. Um cara que jogou Copa, tem outro mecanismo, vê as coisas de maneira diferente. E com a Itália era assim, dificilmente a gente goleava a Itália. Nessa Copa do Mundo, vencemos eles de 8x2. Mas sabe quanto estava o jogo até o terceiro tempo? 4x2. Eu fiz dois gols no finalzinho. Um deles com assistência do Zico, que colocou a bola na minha cabeça. Esse jogo foi duríssimo. A gente tinha um trunfo no terceiro tempo. Quando entrava eu, Renan, a gente atropelava. Eles não tinham banco, tinham quatro campeões do mundo, mas não tinham banco. Aí eles cansavam, até porque não treinavam como a gente”, declarou Júnior, antes de citar também a Celeste:

“O Uruguai também era duro. O time deles foi terceiro em 95, eu acho. No outro ano, a final foi Brasil contra Uruguai. Nessa primeira fase, caiu Uruguai, Itália e Brasil. O Uruguai perdeu para a Itália porque não estava acostumado a jogar futebol de praia, a Itália já tinha mais a manha. Mas o Uruguai era bom para caramba, tinha jogadores que jogaram Copa do Mundo. O jogo contra eles foi 7 a 4. Chegou no terceiro tempo, eles cansaram. A praia desgasta muito. E eles não tinham tanto banco. Não era tão fácil quanto as pessoas imaginavam. É porque nosso time era muito bom e fazia parecer fácil. Os jogos não eram mole não, mas – sem soberba alguma - a gente que jogava muito. Além deles (veteranos), ainda tinha eu, Neném, Renan. Então não tinha como. Foi um casamento perfeito”.

Passe de calcanhar para Zico na final


Júnior Negão é 12 vezes campeão mundial pelo Brasil e o atleta que mais vestiu a camisa da Seleção pela modalidade, com 318 jogos disputados. Além disso, é o segundo maior artilheiro da história com 319 gols marcados, atrás apenas de Neném, também da geração de 95, que soma 330. No entanto, apesar dos inúmeros feitos e marcas atingidas, o ex-atleta garante que o momento mais especial de toda sua carreira foi ter feito uma ‘tabelinha’ com Zico que entrou para a história.

O cenário não podia ser melhor. Final do Mundial contra os Estados Unidos. Júnior Negão já havia marcado seu gol na partida e, àquela altura, o Brasil vencia com folga. Mas havia outra conquista em disputa naquele momento: o ‘Galinho’ estava a apenas um gol de alcançar a artilharia do torneio. E coube ao fã presentear seu ídolo com uma assistência de calcanhar, que facilmente poderia ter sido assinada pelo ex-craque do Flamengo.

“Foi o principal momento da minha carreira. Foi ali que eu percebi que dava para jogar (em alto nível). Porque poxa, tabelar com o Zico, ainda mais com uma tabela bonita daquelas. Era para ser o contrário, né? O Zico dar um passe daqueles e eu entrar com bola e tudo. O abraço dele, seguido de um ‘monstro, Negão’ também significou muito. Ele não sabe a força que me deu. Foi ali que eu decidi que ia realmente jogar e me dedicar na praia. Foi Deus. Não tenho do que reclamar. E aquele passe foi logo depois de eu ter feito um gol bonito. Depois que eu fiz esse gol, o Zico precisava de um gol para ser artilheiro. Ele roubou a bola e foi levando, pensei até que ele fosse chutar, porque ele chutava muito. Quando ele me deu o passe, eu pensei: ‘Vou devolver nele’. E deu tudo certo. Então, para mim, aquela jogada, se eu tivesse que escolher só uma jogada no beach soccer, seria aquela. Com certeza me marcou. A partir dali, sempre tive confiança”, contou, com emoção, o ex-jogador.

Legado e futuro da Seleção


A genialidade de Zico. A cadência do maestro Júnior. A liderança de Edinho. O instinto matador de Adão. Esses e outros muitos fatores pesam a favor daqueles que apontam a Seleção de 95 como a melhor da história. Júnior Negão, que competiu por inúmeras formações ao longo dos anos em sua carreira, compartilha da mesma opinião.

“Com certeza foi a melhor. Até porque foi aquela Seleção que fez todo mundo jogar. O futebol de praia era uma brincadeira, não era uma coisa séria. Os caras (veteranos) que fizeram o nome do esporte. Aquele time era o maior time da história. E olha que eu ganhei tudo, podia chegar e falar que outro time que eu fui campeão junto era maior que aquele (de 95), mas tenho que falar a verdade. Time igual aquele não tem. Era bonito demais. Tenho que agradecer demais aos caras que abriram um mercado de trabalho para milhares de pessoas no mundo todo. Porque o futebol de praia não existia”, opinou o segundo maior artilheiro da Seleção.

Brasileiros, americanos e ingleses compuseram o pódio do Mundial de 95 e posaram ao final do torneio com suas medalhas. Brasileiros, americanos e ingleses compuseram o pódio do Mundial de 95 e posaram ao final do torneio com suas medalhas.
Créditos: Acervo Pessoal

Para não deixar a chama daquela Seleção se apagar e manter o legado do esporte no Brasil, Júnior pede por mudanças. Em sua visão, houve um afastamento do grande público com o futebol de areia nos últimos anos – situação completamente impensável no início dos anos 2000, época em que era costumeira a superlotação das arenas da tradicional praia de Copacabana, berço da modalidade.

“Essa galera (mais velhos) deixou o legado para a gente. O que não pode é esse legado, que passou pela minha geração, que passou para outra, se perder. Tem que segurar. Essa galera que está jogando agora tem que dar um jeito de trazer o público de volta. O mais difícil foi trazer o público. Os caras (veteranos) saíram e nós conseguimos deixar o público lá, por dez anos. Joguei até mais de dez anos. Tem que ter público, é isso que motiva o jogador, o artista. Qualquer pessoa que é atleta sabe disso. A minha geração entupia as arenas de gente. Era 10 mil assistindo e com filas do lado de fora. Meu maior sonho é a gente voltar a ter público. De preferência, na praia de Copacabana, onde tudo começou. Meu maior sonho é esse, voltar a ter aquele público, com as arenas lotadas”, concluiu.

Através de depoimentos, objetos e lembranças compartilhados pelos próprios atletas, o site da CBF relembra conquistas das Seleções Masculinas e Femininas, de base e profissional, com o Baú da Seleção. Toda terça-feira algum personagem que brilhou com camisa Amarelinha aparece por aqui com alguma história inédita. Continue ligado!

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