Raízes da Seleção: a resistência capoeirista de Alex Sandro

Raízes da Seleção: a resistência capoeirista de Alex Sandro

Filho de baiano, Alex Sandro levou o que aprendeu na capoeira para dentro de campo e venceu no futebol

Alex Sandro no Raízes da Seleção

Créditos: Lucas Figueiredo/CBF

A capoeira é uma das mais importantes expressões culturais brasileiras. Originalmente praticada pelos negros escravizados no país, é até hoje um símbolo de resistência. É parte de nossa identidade, da formação do nosso povo e... da história de Alex Sandro. Foi em meio a rodas e cantos que nasceu o talento tipicamente brasileiro do lateral, que atualmente defende a Seleção na Copa América.

Filho de baiano, Alex herdou da mãe o apreço pela capoeira. Desde a infância, em Catanduva, no interior de São Paulo, coleciona memórias vividas de pés descalços e corda na cintura. Até hoje, é capaz de perceber as marcas que a capoeira deixou em seu futebol. Um drible aqui, um voleio ali, e aparecem os traços de uma paixão de criança. 

– Eu gostava muito de capoeira. Tenho duas medalhas de acrobacia, uma de prata e outra de ouro. Até na Itália os treinadores me falam que alguns movimentos parecem de capoeira. Minha mãe jogava, meu irmão também, temos uma história dentro dela. Praticar mesmo, com um grupo grande, faz muito tempo que não pratico. Mas às vezes ainda viro uns mortais por aí – contou o lateral.

Não foi só a agilidade nas pernas que Alex Sandro trouxe da capoeira para o futebol. Entre quedas e saltos cheios de ginga, ele aprendeu que a vida é mesmo um jogo de resistência e que o movimento faz parte da natureza humana. Iniciado ao futebol na escolinha da prefeitura de Catanduva, foi reprovado nos dois primeiros testes que fez. No Santos, foi bem, elogiado, mas acabou de fora do corte final da peneira. No São Paulo, viveu um dia ruim, não conseguiu mostrar suas qualidades e chegou a duvidar de si mesmo.

– Quando fui reprovado no teste do São Paulo, sentei na arquibancada do Morumbi e olhei para o campo, já com as lágrimas escorrendo. Pensando: e agora? Será que eu nunca vou conseguir, que eu nunca vou ser jogador de futebol? Depois estive com a Seleção Brasileira no mesmo estádio onde chorei um dia. É uma reviravolta na vida – recordou.

Entre as dificuldades que a família tinha para se sustentar e as que o futebol lhe apresentava, Alex Sandro precisou provar sua força. A oportunidade de levar a bola como profissão só surgiu aos 15 anos. Após um amistoso pelo time de Catanduva contra o Athletico-PR, chamou a atenção da comissão técnica do Furacão.

Com o convite em mãos, se mudou para Curitiba, e teve que lidar com um obstáculo até então desconhecido: o frio. Preocupados, os pais mandavam roupas mais quentes pelo correio, já que Alex não tinha condição de comprar as próprias vestimentas na capital paranaense. Nos primeiros meses de Athletico, o lateral recebeu uma ajuda de custo de 100 reais. Mesmo que parecesse pouco, o salário o ajudou a perceber que podia fazer a diferença na vida de sua família. 

– Juntei 300 reais, liguei para minha mãe e falei: vamos reformar a casa. Comprei a tinta, ela pagou o pedreiro e pintamos a frente da casa. Foi quando percebi que podia ajudar minha família com o futebol. A partir daí, esse sempre foi meu primeiro pensamento. Antes de comprar alguma coisa para mim, via o que eu podia fazer para minha família. 

É claro que, ao olhar para trás, Alex Sandro enxerga o quanto já conquistou. Das rodas de capoeira para alguns dos estádios mais famosos do mundo, o lateral se tornou um orgulho para os que estiveram ao seu lado. Mas não pensa em parar por aí. Ele sabe que a batalha corre no sangue e não há como fugir disso. O exemplo sempre esteve dentro de casa. Hoje na Seleção Brasileira, ele valoriza cada momento, porque sabe o que precisou superar para estar ali:

– Procuro fazer de tudo pelos meus pais, porque sei que eles fizeram de tudo por toda a família. São grandes espelhos para mim. Minha mãe começou a trabalhar como faxineira com 10, 12 anos, e terminou o estudo com 35. Somos uma família de batalhadores. Desde avós, de pais, de mãe, e agora sou eu, tenho que continuar batalhando. (Estar na Seleção) Tem um significado muito grande, porque representa as vitórias que me trouxeram até aqui. A felicidade não é só minha, mas de todos que puderam me acompanhar.

Retrato Alex Sandro Criado em meio a rodas de capoeira, Alex Sandro chegou ao futebol depois de muita persistência
Créditos: Lucas Figueiredo/CBF

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