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Qual o papel da imprensa na luta por igualdade no esporte?

Em março deste ano, fui convidada pela CBF Academy para dar uma aula sobre Posicionamento no curso Relacionamento com as Mídias no Futebol Feminino. A base da aula seria o Minimanual do Jornalismo Humanizado – Jornalismo Esportivo que escrevi para uma série da ONG Think Olga em 2018. Guia de bolso para jornalistas, o manual pontua os principais erros históricos da imprensa esportiva na cobertura de competições femininas e atletas mulheres – práticas que acabaram reforçando estereótipos negativos de gênero através das décadas, como chamar atletas de “musas” e a insistência em focar mais nos atributos físicos das mulheres do que em seu desempenho atlético. Essa abordagem contribui para afastar mulheres do esporte: segundo dados de 2017 da ONG Plan International, 49% das meninas desistem do esporte na adolescência por medo de ficarem “masculinizadas” e não se adequarem a um padrão de feminilidade imposto.

O manual (que pode ser baixado gratuitamente no site da ONG Think Olga) pretende conscientizar jornalistas sobre essas questões ainda pouco discutidas e assim ajudar a eliminar o sexismo das reportagens. O guia traz ainda uma lista de boas práticas, como “denunciar o abismo no tratamento entre atletas homens e mulheres”, “dar espaço e visibilidade para as competições femininas” e “fazer uma cobertura consciente que leve os leitores a refletir sobre a desigualdade de gênero”.

Para minha grata surpresa, ao preparar a aula para o curso da CBF Academy, precisei atualizar parte considerável da pesquisa. Pois graças a fatores como os avanços da luta feminista (que impulsionaram mudanças de diretrizes nas redações jornalísticas) e o fortalecimento do marketing e causa (que vê diversidade e inclusão como valores), a situação das mulheres do esporte – especialmente do futebol – é bem mais favorável em 2021 do que era em 2018, quando o manual foi publicado.

Hoje, por exemplo, são raras as chamadas galerias obscenas, quando o veículo reúne fotos de atletas em trajes curtos ou posições comprometedoras, ou então de torcedoras com blusas decotadas nas arquibancadas, e utiliza chamadas como “confira os cliques mais quentes das gatas do esporte” para atrair atenção do público. Também é cada vez mais difícil encontrar matérias chamando uma atleta abertamente de musa (muitas atletas inclusive se posicionaram contra esse por avaliarem era prejudicial às suas carreiras). Tampouco é comum encontrar matérias em que o repórter pede à atleta para revelar seus “segredos de beleza” ou “dicas de dieta”. Por outro lado, sobram matérias fomentando o debate da equidade de forma positiva e tratando as atletas e competições femininas com o respeito que merecem.

Outro fator essencial para essa mudança é o maior comprometimento das redações esportivas em contratar profissionais mulheres, o que reflete diretamente no conteúdo produzido. No ano em que o manual foi publicado, duas pesquisas então recentes mostravam que menos de 10% das colunas de esporte dos 10 maiores jornais do país eram escritas por mulheres (Gênero e Número, 2017) e apenas 13% das profissionais dos programas esportivos da TV fechada do Brasil eram mulheres, quase todas em cargos de reportagem (UOL Esporte, 2017). Hoje as mulheres ocupam espaços mais amplos, mas foi apenas recentemente que a Rede Globo, maior veículo de comunicação do país, decidiu contratar as primeiras comentaristas e narradoras.

Diante das melhorias que chegam a passos lentos e com muita luta, surgem também novos desafios. O principal diz respeito à diversidade e pluralidade das mulheres que ocupam os holofotes da imprensa esportiva, ainda predominantemente brancas e adequadas a um “padrão” de beleza e feminilidade imposto pela sociedade. Também é urgente que haja mais mulheres em cargos de tomada de decisão dentro das redações. Afinal, se 2021 foi o ano em que precisei adaptar a pesquisa diante da evolução do debate, foi também o ano em que um narrador esportivo se sentiu à vontade para sugerir que as jogadoras de um time de base entrassem em campo de fio dental, enquanto outro chamou os cabelos das atletas negras de “exóticos” na transmissão oficial.

Fora do âmbito jornalístico, contudo, a estrutura do futebol ainda é predominantemente masculina e segue reproduzindo opressões. Um levantamento feito pela Gênero e Número no início de junho deste ano mostra que apenas 2,7% dos gestores de clubes de futebol são mulheres. Elas também são poucas nos quadros diretivos das federações e confederações esportivas, e as treinadoras e árbitras que conquistaram espaço no futebol masculino ainda podem ser contadas nos dedos das mãos. Seguindo as diretrizes do Minimanual de Jornalismo Humanizado - Jornalismo Esportivo, mantenho a pergunta: como os jornalistas podem contribuir para uma realidade mais igualitária?

Pensar os desafios atuais e o papel da cobertura jornalística em temas como equidade, diversidade, inclusão, posicionamento e das luta feminista e antirracista no mundo dos esportes é um dos temas abordados no novo curso da CBF Academy, “Futebol em Foco para Comunicadores”. Voltado para jornalistas, radialistas, influenciadores e estudantes de Comunicação Social, o curso aprofunda temas relacionados ao futebol dentro e fora de campo, contribuindo para uma comunicação atualizada e efetiva, e levanta debates que antecipam o futuro da cobertura esportiva no país por meio de professores experientes em suas áreas de atuação.

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