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A diferença entre o processo fisioterápico no Futebol Masculino e no Futebol Feminino

Existe diferença no tratamento fisioterápico entre atletas de Futebol Masculino e Feminino?

Por Katherinne Ferro

Quando falamos em tratamento fisioterápico de atletas de Futebol Masculino e Feminino, temos que ter em mente que ambos são atletas da mesma modalidade, de um esporte com as mesmas regras e características, mas que tratar esses atletas não vai ser exatamente a mesma coisa, pois devemos levar em consideração alguns aspectos importantes da saúde da mulher atleta, como a influência do ciclo menstrual, quando lidamos com o Futebol Feminino.

Porém, isso não vai tornar todo o tratamento fisioterápico muito diferente entre esses atletas. Para falar a verdade, esses fatores vão influenciar muito mais no conhecimento sobre epidemiologia das lesões que ocorrem no Futebol Masculino e Feminino (como quais regiões são mais afetadas, o tipo de lesão mais comum, entre outros), nos fatores de risco mais comuns para lesões e no planejamento de um programa de prevenção de lesões. A partir do momento em que a lesão já está instalada, as diferenças no tratamento fisioterápico entre homens e mulheres são poucas.

Estudos mostram que o Futebol Masculino tem uma incidência de 3,7 lesões por 1000 horas de exposição em treinos, e 36,0 lesões por 1000 horas de exposição em jogos(1). Enquanto o Futebol Feminino apresenta uma incidência menor de lesões, que varia entre 1 a 4,6 lesões por 1000 horas de treino, e entre 6,1 a 24 lesões por 1000 horas de jogo(2). E embora as lesões sejam mais incidentes no Futebol Masculino, com os homens apresentando de 20 a 40% mais lesões que as mulheres, a proporção de lesões mais graves (que geram mais tempo de afastamento) parece ser maior em atletas de Futebol Feminino(3), com as mulheres apresentando até 21% de lesões mais graves que os homens(4).

Tanto no Futebol Masculino quanto no Futebol Feminino, as lesões mais comuns são as lesões musculares. Porém as lesões dos músculos posteriores da coxa (isquiotibiais) são mais comuns nos homens, e as lesões dos músculos anteriores da coxa (quadríceps femoral) são mais comuns em mulheres(4). O segundo tipo de lesão mais comum em homens são as contusões(4), enquanto as torções articulares (entorses) são o segundo tipo de lesão mais comum em mulheres(4). Em contrapartida, os homens apresentam 11 vezes mais pubalgia (dor na virilha) do que as mulheres(4). E quanto ao mecanismo de lesão mais comum, aparentemente não há diferença entre homens e mulheres na proporção de lesões traumáticas e lesões por sobrecarga, embora homens apresentem mais lesões por contato do que mulheres(4).

Em relação aos fatores de risco para lesões, cada tipo de lesão tem fatores de risco específicos, tanto no Futebol Masculino quanto no Feminino. Porém um ponto que merece ser observado é que nas mulheres, o ciclo menstrual parece estar relacionado a um risco aumentado de lesões, a depender da fase do ciclo. Aparentemente, mulheres apresentam um risco maior para lesões traumáticas durante o período menstrual, mas esse risco só é maior em mulheres que apresentam sintomas pré-mentruais como: irritabilidade e inchaço dos seios e abdome(5). Alguns estudos também demonstraram que o desempenho para exercícios de força e resistência muscular está levemente diminuído em mulheres durante o período menstrual(6), assim como o desempenho para testes funcionais que envolvem saltos(7). Essas informações são importantes, pois podem ajudar a equipe técnica e médica a ajustar o treinamento e os cuidados com a mulher atleta de acordo com o ciclo menstrual, estratégia que foi adotada pelo time de Futebol Feminino do Chelsea, para melhorar o desempenho das atletas e prevenir lesões.

A importância de conhecer as principais diferenças entre atletas masculinos e femininos de Futebol, é para planejar programas preventivos personalizados de acordo com as regiões mais afetadas, os tipos de lesões mais comuns e os fatores de risco que cada atleta apresenta. Com isso, programas preventivos no Futebol Masculino não podem esquecer os músculos posteriores da coxa e os músculos da virilha, enquanto o trabalho preventivo no futebol feminino não pode deixar de levar em consideração a musculatura anterior da coxa, e o trabalho de controle motor e força necessários para prevenir entorses de joelho e tornozelo, assim como deve observar a influência do ciclo menstrual em cada atleta.

Em termos de recuperação de lesões, pode ser que mulheres atletas tenham uma recuperação mais lenta em alguns tipos de lesões, já que alguns estudos sugerem que a perda de força do músculo anterior da coxa gerada por imobilização é maior em mulheres em comparação aos homens(8); que os tendões de mulheres respondem menos a carga mecânica e apresentam menor resistência mecânica, o que pode deixar esse tecido mais suscetível a lesões e com uma resposta mais lenta ao tratamento com exercício(9); e que mulheres tendem a se recuperar mais lentamente de pancadas na cabeça (concussões)(10). Porém, mais estudos são necessários para confirmar se realmente existem diferenças no tempo de recuperação entre homens e mulheres para os mesmos tipos de lesões e com o mesmo grau de severidade, pois o que existe ainda é incerto.

 

Por fim, mas não menos importante, os fisioterapeutas que trabalham com atletas mulheres não podem deixar de conhecer sobre a Deficiência energética relativa no esporte (RED-S), também conhecida como Tríade da mulher atleta. No futebol feminino, a prevalência da RED-S varia em torno de 29% a 33%(11), e pode estar relacionada com o aparecimento de fraturas por estresse, e influenciar na taxa de recorrência dessas lesões, além de gerar problemas para outros sistemas corporais, que não o sistema musculoesquelético.

Assim, a mensagem final desse artigo é que para um bom manejo de atletas femininas de Futebol, o Fisioterapeuta precisa ter um conhecimento aprofundado sobre as particularidades da mulher atleta, sobre o ciclo menstrual, epidemiologia e características das lesões que mais ocorrem no futebol feminino e sobre condições clínicas comuns à mulher atleta, como as RED-S. Pois só assim, será capaz de oferecer um trabalho de excelência na prevenção e tratamento de lesões nesse público.


Referências:

1.    López-Valenciano A, Ruiz-Pérez I, Garcia-Gómez A, Vera-Garcia FJ, Croix MDS, Myer GD, et al. Epidemiology of injuries in professional football: a systematic review and meta-analysis. British journal of sports medicine. 2020;54(12):711-8.
2.    Alahmad TA, Kearney P, Cahalan R. Injury in elite women’s soccer: a systematic review. The Physician Sportsmedicine. 2020:1-7.
3.    Giza E, Mithöfer K, Farrell L, Zarins B, Gill T. Injuries in women’s professional soccer. British journal of sports medicine. 2005;39(4):212-6.
4.    Larruskain J, Lekue JA, Diaz N, Odriozola A, Gil SM. A comparison of injuries in elite male and female football players: A five-season prospective study. Scandinavian journal of medicine science in sports. 2018;28(1):237-45.
5.    Möller-Nielsen J, Hammar M. Women's soccer injuries in relation to the menstrual cycle and oral contraceptive use. Medicine science in sports exercise. 1989;21(2):126-9.
6.    McNulty KL, Elliott-Sale KJ, Dolan E, Swinton PA, Ansdell P, Goodall S, et al. The effects of menstrual cycle phase on exercise performance in eumenorrheic women: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine. 2020:1-15.
7.    Kami AT, Vidigal CB, Macedo CdSG. Influência das fases do ciclo menstrual no desempenho funcional de mulheres jovens e saudáveis. Fisioterapia e Pesquisa. 2017;24(4):356-62.
8.    Yasuda N, Glover EI, Phillips SM, Isfort RJ, Tarnopolsky MA. Sex-based differences in skeletal muscle function and morphology with short-term limb immobilization. Journal of applied physiology. 2005;99(3):1085-92.
9.    Magnusson SP, Hansen M, Langberg H, Miller B, Haraldsson B, Kjoeller Westh E, et al. The adaptability of tendon to loading differs in men and women. International journal of experimental pathology. 2007;88(4):237-40.
10.    Covassin T, Elbin R, Bleecker A, Lipchik A, Kontos AP. Are there differences in neurocognitive function and symptoms between male and female soccer players after concussions? The American journal of sports medicine. 2013;41(12):2890-5.
11.    Reed JL, De Souza MJ, Williams NI. Changes in energy availability across the season in Division I female soccer players. Journal of sports sciences. 2013;31(3):314-24.

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