Seleção e clubes: sempre juntos

Seleção e clubes: sempre juntos

Artigo do Presidente da CBF, Rogério Caboclo

Posse Rogério Caboclo Posse Rogério Caboclo
Créditos: Lucas Figueiredo/CBF

Quando um jogador se destaca em campo, a torcida começa a gritar: “É Seleção!". Não por acaso. Ser convocado para a Seleção Brasileira é o sonho de todo atleta, um reconhecimento da qualidade do seu futebol. E do clube em que ele joga. Porque só vai para a Seleção quem encontra no clube a condição para desenvolver ao máximo o seu potencial.

A Seleção Brasileira é tão forte quanto forem os nossos clubes. O inverso também é verdade. Quanto mais forte e vencedora for a Seleção Brasileira, maior é o prestígio do nosso futebol e mais valorizadas são as marcas que o representam.

Vivemos um bom momento. Os jogos da Seleção estão entre os maiores índices de audiência da televisão brasileira, numa demonstração do quanto ela é valorizada pela torcida. Acabamos de conquistar a Copa América. Ao mesmo tempo, pela força do Campeonato Brasileiro e dos nossos clubes, caminhamos para bater o recorde de público da história da Série A, além de repetir os enormes índices de audiência antes mencionados.

Temos desafios importantes pela frente. A partir de 26 de outubro vamos sediar a Copa do Mundo Sub-17. Recebemos da FIFA a honrosa missão de organizar nossa segunda Copa do Mundo em cinco anos. Dentro de campo, vamos disputar o título, decididos a retomar o protagonismo do Brasil no futebol de base mundial. Para isso, precisamos de força máxima. Dos melhores jogadores.

Nossa Seleção Olímpica começa o caminho para disputar os jogos de Tóquio, no ano que vem. Em janeiro, na Colômbia, vamos disputar o pré-Olímpico, com as dez seleções sul-americanas competindo por apenas duas vagas. Um torneio difícil e que ocorre fora das datas FIFA, e no qual precisaremos dos melhores atletas para garantir a classificação. Vale dizer que, mesmo sendo o campeão olímpico, não temos vaga garantida.

Todos lembram de como o país vibrou e de quanto foi importante a conquista da Medalha de Ouro no Rio, em 2016. Agora, temos a responsabilidade de lutar para manter essa medalha.

A Seleção Feminina também vai disputar o Ouro Olímpico, liderada pela técnica Pia Sundhagen, uma bi-campeã olímpica, que acabamos de contratar. Para buscar essa medalha, contaremos com as nossas maiores craques.

E a Seleção masculina principal começa no ano que vem o desafio das Eliminatórias para a Copa do Mundo. Continuaremos a ser o único país presente em todas as Copas. A partir do ano que vem, temos duas competições importantes: a Copa América e as Eliminatórias. Serão dois anos de jogos oficiais, sem parar! E a nossa preparação terá que ser concluída nas quatro datas FIFA que restam em 2019.

A torcida exige vitórias e conquistas da Seleção Brasileira. E isso só acontece com a preparação adequada.

Por isso, cada jogo é importante. Não existe amistoso. Cada uma dessas partidas decide o destino numa competição importante, até a Copa do Qatar. Por isso, precisamos sempre convocar os melhores.

Nenhuma seleção conquista uma Copa do Mundo, ou competições de expressão, sem utilizar os chamados amistosos como um verdadeiro laboratório para definir quem são os melhores jogadores e qual a melhor estratégia de jogo para eles. Lembro que são somente 10 jogos desse tipo por ano e apenas nessa situação é que se constrói uma grande equipe. Por óbvio, que não é numa competição oficial que se treina o time e se faz dele vencedor.

Portanto, assumimos na CBF dois conceitos: o primeiro é que não existem amistosos. O que existe são jogos preparatórios. E segundo que as seleções brasileiras não mais abrirão mão de ter os melhores jogadores em campo.

O fato é que queremos vencer todas as competições que disputarmos. E faremos todo o possível para isso.

A CBF trabalha muito para agendar sempre os melhores jogos para a nossa Seleção. Não é uma missão fácil. A criação da Nations League e as Eliminatórias da Eurocopa tomam praticamente todo o calendário das seleções europeias, ocupando o espaço que era dedicado aos amistosos. Quase 90% das datas europeias estão tomadas. E, mesmo quando há datas vagas, alguns times preferem não correr o risco de enfrentar o Brasil, pois levam muito a sério o papel dessas partidas na sua estratégia de confiança coletiva e construção de equipe.

Temos lutado muito para encontrar adversários que estejam entre os 20 primeiros do ranking da FIFA. Ou, pelo menos, entre os 50 primeiros.

O mesmo torcedor que pede a convocação de seu craque a cada drible ou a cada gol, reclama quando ele desfalca seu clube do coração para servir à Seleção. É compreensível. Não é fácil equilibrar duas paixões. Temos trabalhado para otimizar cada vez mais o calendário do futebol brasileiro. Já conseguimos, a partir do ano que vem, evitar que as datas FIFA coincidam com rodadas de competições nacionais, conforme anunciei na minha posse. Para este ano, os contratos e regulamentos das competições já estavam decididos. Temos de respeitar direitos adquiridos em campo e os regulamentos das competições vigentes.

O calendário é o grande desafio do futebol brasileiro. Ele não é uma criação da CBF. Entendo que fazer calendário é a arte de traduzir em datas compromissos contratuais assumidos por todos os clubes em relação aos campeonatos que disputam e pelos quais recebem prêmios relevantes, que constituem parte majoritária de suas receitas anuais. Uma complexa construção que acontece com a necessidade da conciliação das datas FIFA com as competições continentais, os campeonatos estaduais, a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro. Com a particularidade de realizar competições em um país de dimensões continentais, muitas vezes com logística difícil, agravada pela recente redução da malha aérea nacional.

A CBF compartilha com os clubes e federações essa responsabilidade, pois isso faz parte da sua missão. Desde o início dessa gestão declaramos que o futebol brasileiro precisa fazer uma verdadeira escalada no PIB nacional, produzindo cada vez mais receitas e fazendo os clubes do Brasil cada vez mais competitivos em nível internacional, de maneira a encurtar as distâncias que temos em relação aos principais clubes europeus, essencialmente em razão da defasagem cambial. Assim como defendemos que os clubes não sejam onerados de uma forma que não reconheça suas particularidades. A CBF reconhece e respeita a gestão séria e profissional que, de modo geral, vem sendo realizada nos clubes e federações.

Os clubes lutam para ir mais longe sempre, em todas as competições. Isso significa jogar mais. Por isso, o esforço para se classificar para a Libertadores da América ou para a Copa Sul-Americana. Ou para avançar até a final da Copa do Brasil. À CBF cabe dar condições para isso. Como foi feito ao definir que os times que disputam a Copa Libertadores joguem também a Copa do Brasil, entrando somente a partir das oitavas de final. E antecipamos este ano a decisão da Copa do Brasil para setembro, de forma a que ela não concorra com a reta final do Brasileirão. Desonerando, de forma responsável, o nosso calendário.

Contamos sempre com o apoio das Federações para colaborar com este calendário mais racional, adotando fórmulas cada vez mais eficientes para os campeonatos estaduais, que são imprescindíveis para o futebol do Brasil. Assim foi em relação à redução de datas dos estaduais para o próximo ano, bem como a sensibilidade da Conmebol para reduzir datas de suas competições.

A solução do calendário a partir de 2020 já foi construída, com a paralisação das competições em datas FIFA, preservando os clubes e fortalecendo ainda mais a Seleção Brasileira. Não podemos concorrer com nós mesmos. Essa luta já acabou. Para que o torcedor continue a vibrar com os nossos craques, seja com a camisa da Seleção, seja com a do seu time do coração. Definitivamente, defendemos e apoiamos de forma igual nossos maiores patrimônios: Seleções e Competições. Esse é o nosso compromisso com o futebol brasileiro.

Rogério Caboclo 
Presidente da CBF